sexta-feira, 30 de abril de 2010

é muito gostoso olhar o seu próprio quarto através de um espelho.
podiam vender óculos que espelhassem a nossa visão, assim provaríamos mais o incomum do comum. mas na falta desses óculos ainda temos os milenares psicotrópicos.

as vezes acho que quando rimos é pq provamos desse incomum do comum.

poderíamos então em vez de usar os óculos espelhados, tomarmos poções do incomum do comum.

mas pq essa necessidade de materializar esse sentimento, em um objeto, em uma imagem?

O metro rio agradece

tim, tom...
- next stop, catete station
uma senhora não tira por nada os olhos
do jornalzinho gratuito, um homem
pena pra levar o dia
na barriga
já o barrigudo
e suas pelancas, não vê que está incomodando aquela mocinha tão bonitinha
inda mais
essa carinha de nojo...
bem podia ser eu no lugar do gordo
se ele levanta eu sento!
mas... não há tempo
é preciso estar atento
ao vão entre o trem o a plataforma
- mind the gap.

terça-feira, 27 de abril de 2010

eu amo seus cacoetes, encharcados de estrume dando cambalhotas

segunda-feira, 26 de abril de 2010

con( )ciência ou não, há vida em plutão

domingo, 25 de abril de 2010

Trilhos

Pare
Olhe
Escute

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Humanos

Aquele que sempre sorri
É feliz ou infeliz?
Ou esconde com gentileza
A sua secreta tristeza?

Aquele cujo coração morre lentamente
Enquanto vive, é infeliz?
Vive sem emoções, estas seladas,
Mas ainda as tem, trancadas.

Aqueles que fazem promessas,
Caminham juntos, cada um em sua rota
Apostam nessas idéias,
Se apaixonam; felizes?

Aquele que luta contra o passado
Vive uma ilusão ainda mais forte,
É infeliz. Problemas passados diferem de sonhos?
É feliz.

Aqueles que no longo e contínuo caminho do tempo
Nascem, riem, choram, lutam, sofrem;
Festejam, lamentam, odeiam, amam
Mudam. São transitórios.

Aquele que dramatiza
Ou decora fatos com rosas
Falsas ou verdadeiras
O que são?

As mentes que, como os tempos, estão confusas
Que rumo tem?
Perdidas e infelizes. Em um mundo feito para elas,
Se encaixam perfeitamente: felizes.

Os que escolhem suas vidas
E vivem como são
Felizes,
E dispensados pelos céus.

Os que tem a íris sempre úmida
E pensamentos induzidos por tragédias
Ou comédias. Não se surpreendem
Não se arriscam; infelizes. Infelizes?

Os que acreditam em uma única verdade
Fadados a limitados sentimentos
Não tiveram dúvidas, nem se arrependem
Infelizes felizes.

Os que compartilham a dor e o desaparecer
Aceitam e sentem a força
E a determinação do mundo
Que não precisa deles.

Eu sei que eles sabem,
Só talento não basta para sorrir
As flores são belas quando nascem
Mas também quando caem.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Até onde vai o necessário?

entre Homens e Deuses,
sob o céu e sobre a terra,
além do bem e do mal,
sem fé e sem ciência.
as ovelhas pastam.
todos os dias.
no passado e no futuro.

o homem; vai pastar no futuro?
tem futuro?

sábado, 27 de março de 2010

O poeta como vigário

o poema disfarça
        na sutil fragilidade dos versos
a culpa desistida
        a morte assistida nos braços do vento;
o poeta verdadeiro
        (feliz ou infeliz destino?)
vê morrer na praia
        seu último intento:
                sua poesia mesma.

por ela ele reza seus versos.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Menina

Essas pequenas coisas...
Todas congeladas no tempo.
Mais parecem romance de quinta
do que memórias de vida,
e mesmo assim estão lá.
Meio enevoadas, esquecidas,
mas presentes.
Feito pinguim de geladeira.

Se são verdadeiras ignoro.
Mas que importa?
Apenas sei que descendo uma escada,
Os cabelos compridos na cara,
meu olhar encontrou o dela.
Um recreio escolar, veja você.

Ali não poderia afirmar nada.
Mesmo hoje não posso!
Mas aquele olhar,
aquela escada,
aquela menina,
isso ficou.
Essas pequenas coisas...

Confesso que não me lembro
de nossas primeiras conversas,
de nossas investidas dispersas,
dos sims, dos nãos, dos ais...
Peças da memória.
Mas já aquele primeiro olhar,
magnetismo animal,
além do bem ou do mal,
Puro.
Ele ficou.

Há mais pinguins na geladeira dessa história.
Um beijo aguardado e apressado,
um gemido encostado num carro,
um terraço e um baseado.

As maneiras todas que nos amamos
nos desejamos
nos consolamos do cinza da vida,
essa ferida, e finalmente
do cigarro pós-coito
dos sentidos relaxados
e daquele velho olhar renovado.

Essas pequenas coisas...



Procissão

[exercício]


A gente caminhava com vagar rua acima, velas em punho, a canção a embalar os passos, como se nem movimento houvesse. Não se moviam, em verdade: era a rua que os atravessava, consumindo a chama e o tempo de cada um. Algo como um balançar de navio, no ritmo que os pés descalços marcavam na poeira. No mais era a noite que se anunciava por detrás das colinas.
[Narrativa acompanhando]

Viam-se apenas fagulhas, velas em combustão cortando a tarde. A noite logo viria, e com ela as estrelas, como a tomar parte na procissão. Cada pessoa era uma estrela. Cada estrela, uma pessoa. Assim, ambas as marchas seguiam seus cursos: saberiam da existência uma da outra? A coincidência era tanta...
[Narrativa panorâmica]

À frente da procissão senhoras vestiam luto. Sobreviventes, como a própria marcha que compunham. Velas empenhadas em suas orações, os passos lentos, mas tão rápidos quanto lhes permitia a idade. A poeira levantada insinuava, apenas, o que de misterioso havia. Homens, mulheres, crianças vinham em seguida; capaz que todos compartilhassem da mesma incompreensão, por mais que a solidão frustrasse no gérmen qualquer tentativa de encontro. A noite banhava de melancolia igualmente a todos quando a procissão passou.
[Narrativa estática]

Senhoras trajavam preto, dos pés à cabeça. Às velas que empunhavam cabia iluminar o que o sol lentamente se recusava a fazê-lo. Meninos, mulheres, homens. No tempo da procissão, quase tudo pouco valia. Quase nada. Uma chama a percorrer um fio: uma vela, uma marcha, uma vida? Quase tudo. Já noite, o andar assumia o tom da noite. E o canto que ritmava os passos e enchia de poeira a rua perdia-se num céu tão estrelado, a vibrar, vibrar, vibrar...
[Narrativa em flashes]

Na pequena estrada de terra que separava em dois o capinzal tomava forma a procissão. Senhoras de tristes feições abriam caminho, seguidas pelos demais. Muitos empunhavam velas, que com o encaminhar da marcha se faziam mais e mais visíveis sob o céu negro e estrelado do campo. As canções, ora melodiosas, ora recitadas, marcavam o ritmo a ser seguido. Os pés no chão levantavam a poeira na qual estavam envoltos: visibilidade dando lugar ao mistério crescente.
[Descrição objetiva]

Que havia de diferente, não se poderia dizer. Mas nenhum dos presentes negava àquela procissão o seu devido respeito de coisa incompreendida. Talvez o sol poente, as primeiras estrelas do céu. Que fossem as canções que as mais senhoras puxavam do fundo das já tão surradas gargantas... Seja talvez esta a pista: o respeito, o grave e silencioso respeito que toda gente prestava, um encontro de alma e mundo. O entendimento dispensando razões.
[Descrição subjetiva]

O sol se punha preguiçosamente. Iluminara e aquecera todo um dia, mais que seu direito o repouso que a noite traz. Não aquela gente, marchando em procissão, vagarosa, pé ante pé, ao som dos cantos que as mais senhorinhas empenhavam. Eram palavras doces e ríspidas, envolventes como um riacho, caudalosas qual torrente. O rio dos homens seguia seu fluxo, em meio à noite e à escuridão. Em breve as velas se apagariam. Restar-lhes-ia apenas o escuro, e cada um a si mesmo.
[Descrição mais subjetiva]